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O microbioma oral e o risco de cancro do pâncreas: o que sabemos até agora?

A pista para a origem do cancro do pâncreas parece estar na boca. Um grande estudo prospetivo acaba de pôr em evidência algo que, até há pouco tempo, parecia mais uma hipótese do que um facto: que a combinação de certas bactérias e fungos no microbioma oral, medida anos antes, está associada a um risco acrescido de desenvolver cancro do pâncreas. O artigo foi publicado no JAMA Oncology e reacendeu um debate de longa data: será a saúde periodontal (e o seu microbioma) um “marcador precoce” útil ou outra coisa qualquer?

O cancro do pâncreas pode ser detectado através de testes bacterianos orais?

O estudo de Meng et al. analisou amostras orais recolhidas antes do início da doença em duas grandes coortes dos EUA e comparou 445 pessoas que desenvolveram cancro do pâncreas com 445 controlos correspondentes. O seguimento médio foi de 8,8 anos, reforçando a ideia de que o “padrão microbiano” precede o diagnóstico(Meng Y. et al., JAMA Oncology, 2025, JAMA Oncology).

A novidade não é apenas “uma bactéria”. O que chama a atenção é a abordagem combinada: os autores constroem uma pontuação de risco microbiano (MRS) com 27 espécies orais e observam que, por cada aumento de 1 desvio-padrão nessa pontuação, a associação com o cancro do pâncreas aumenta acentuadamente.

Que bactérias orais estão associadas ao cancro do pâncreas?

Na análise, três bactérias ligadas à patologia periodontal foram associadas a um risco acrescido: Porphyromonas gingivalis, Eubacterium nodatum e Parvimonas micra.

Quando alargaram o foco ao microbioma como um todo, descobriram que:

  • 13 bactérias foram associadas a um maior risco e 8 a um menor risco (após controlo de falsas descobertas).

  • Nos fungos, o género Candida foi associado a um risco acrescido.

O que os estudos anteriores já apontaram

A tese defendida por este artigo é uma tese que tem vindo a acumular sinais através de vários outros estudos e artigos:

  • Em 2018, Fan et al. publicaram um estudo prospetivo na revista Gut em que a presença de certas bactérias orais, incluindo P. gingivalis e Aggregatibacter actinomycetemcomitans, estava associada a um maior risco de cancro do pâncreas.
  • A ligação entre as duas doenças não se limita aos “micróbios na saliva”: um estudo de 2013 descobriu que níveis elevados de anticorpos contra uma estirpe patogénica de P. gingivalis estavam associados a um risco aproximadamente duplicado.

Por isso, não é por acaso que se menciona a relação entre a periodontite e o cancro do pâncreas. Assim, foi demonstrada uma associação repetida em coortes, estudos prospectivos e meta-análises em que o foco do estudo eram bactérias e fungos orais.

A mensagem principal não é alarmista: estamos a falar de associações e de investigação de biomarcadores, não de um teste de diagnóstico pronto a usar ou de uma relação causal comprovada.

O que é interessante é o horizonte que esta linha de trabalho abre: se estes resultados forem validados noutras populações e demonstrarem utilidade clínica, a boca pode tornar-se uma forma simples e não invasiva de ajudar a estratificar o risco e orientar o seguimento de pessoas com factores de predisposição.

Até lá, a melhor leitura prática é clara: manter uma boa saúde periodontal continua a ser uma decisão inteligente para a saúde geral, enquanto a ciência completa o seu esclarecimento sobre até que ponto o microbioma oral pode antecipar o que está a acontecer muito para além da cavidade oral.